sexta-feira, 15 de março de 2013

Sondas Espaciais

A vida humana é muito breve e as distâncias planetárias enormes. Assim, a única maneira que o homem encontrou para visitar outros mundos foi a utilização de instrumentos robotizados capazes de coleta, processamento e envio de dados de regiões impossíveis do homem ter acesso direto. Esses dispositivos recebem o nome geral de Sondas Espaciais e neste ano de 2013 particularmente, os cientistas receberão informações de "olhos e mãos" colocados em órbita do Sol, de Mercúrio, de Vênus, da Lua, Marte (a grande estrela com diversas sondas), Júpiter, Saturno e até Plutão. Para entendermos melhor por onde andarão e que contribuições trouxeram, trazem e trarão esses dispositivos, iniciamos hoje uma série chamada SONDAS ESPACIAIS, onde pretendo abordar um pouco sobre esses fantásticos aparelhos, iniciando por duas sondas que, em tese, já encerraram suas missões mas que continuam recebendo instruções e transmitindo informações, as sondas VOYAGER.

VOYAGER I e II



A foto abaixo retrata o mais longínquo objeto criado pelo homem no espaço. É a Voyager I, uma sonda espacial lançada ao espaço em 05/09/1977 para estudar os sistemas joviano (Júpiter e seus satélites) e saturniano (Saturno e seus satélites).
Sua maior aproximação com Júpiter ocorreu em 05/03/1979 e com Saturno em 12/11/1980. Junto com sua irmã gêmea, Voyager II - lançada duas semanas antes, enviou mais de 30000 imagens de elevada qualidade dos gigantes gasosos e de seus satélites além de outras informações científicas enviadas por outros instrumentos transportados pelas sondas (detectores de raios cósmicos, de ondas de plasma, de partículas de baixa energia; magnetômetro; espectômetro; detector de ventos solares). Descobriu também os anéis de Júpiter, atividade vulcânica em Io (um dos 4 satélites galileanos), mais 3 satélites em Saturno e ricas informações sobre estrutura, composição, atividade da maior lua de Saturno, Titã, que tem características semelhantes às da Terra primitiva . Para poder se aproximar de Titã, a Voyager I sofreu um desvio gravitacional que a impulsionou para fora do plano da eclítica (plano que contêm o Sol e todos os planetas), pondo fim à sua missão de estudar os planetas. Surpreendentemente, a sonda continua recebendo comandos de rotina e transmitindo dados até hoje. Atualmente está a uma distância de 125 U.A.* e, a parte do espectômetro e do detector de ventos solares, continua recebendo dados dos outros dispositivos e deve manter essa comunicação até 2020. Até 2015 ela deverá sair do Sistema Solar e entrar no chamado espaço interestelar. 
Representação da localização da sonda Voyager I em 2012
*1 U.A. = unidade astronômica = distância média da Terra ao Sol = 150 milhões de k m

A Voyager II ,após visitar Júpiter e Saturno, chegou a Urano em 1986 descobrindo 11 novos satélites naturais e um tênue anel ao redor do planeta. Quatro anos depois chegou a Netuno obtendo as primeiras imagens detalhadas deste planeta. Atualmente, encontra-se a cerca de 105 U.A.* da Terra e manterá contato com a Terra até 2030. 

Imagens dos planetas e satélites enviadas pelas Voyager
Saturno
Satélite de Júpiter Io - Netuno e seus anéis
Perder o contato com a Terra não significa que deixarão de funcionar. Elas seguirão suas trajetórias caso não se choquem com algum detrito. Para passar informações sobre a Terra, caso sejam interceptadas por alguma forma de vida inteligente, ambas as sondas carregam, em sua parte externa um disco fonográfico, revestido a ouro, e uma agulha para sua leitura, intitulado "Sounds of earth" (Sons da Terra) contendo 35 sons da natureza (pássaros, vento,...), saudações em 55 línguas (inclusive o português), trechos de música de diversos povos, obras de Mozart, Beethoven, Chuck Berry. Foram também impressas eletronicamente imagens de paisagens naturais e de conquistas humanas, um átlas do corpo humano e um mapa localizando o Sistema Solar.

Detalhes das mensagens impressas nos discos levados pelas Voyager


Em 1990, quando a Voyager II terminava sua missão em Netuno, a Nasa, a pedido de Carl Sagan, direcionou as câmeras da sonda para trás, na direção dos planetas que havia acabado de visitar, e tirou diversas fotos. Uma delas está reproduzida abaixo e mostra a Terra vista de um ponto além da órbita de Netuno: "um Pálido Ponto Azul, num raio de Sol", como disse C. Sagan


Essa imagem inspirou Sagan a escrever o livro "Pálido Ponto Azul - uma visão do futuro da humanidade no espaço" de 1994 e lançado em 1996 no Brasil pela Companhia das Letras (leitura obrigatória para quem se interessa pela Astronomia). Em 1996, numa conferência, Sagan externou suas reflexões sobre esta fotografia:
Cquote1.svg
Olhem de novo para esse ponto. Isso é a nossa casa, isso somos nós. Nele, todos a quem ama, todos a quem conhece, qualquer um dos que escutamos falar, cada ser humano que existiu, viveu a sua vida aqui. O agregado da nossa alegria e nosso sofrimento, milhares de religiões autênticas, ideologias e doutrinas econômicas, cada caçador e colheitador, cada herói e covarde, cada criador e destruidor de civilização, cada rei e camponês, cada casal de namorados, cada mãe e pai, criança cheia de esperança, inventor e explorador, cada mestre de ética, cada político corrupto, cada superestrela, cada líder supremo, cada santo e pecador na história da nossa espécie viveu aí, num grão de pó suspenso num raio de sol.
A Terra é um cenário muito pequeno numa vasta arena cósmica. Pensai nos rios de sangue derramados por todos aqueles generais e imperadores, para que, na sua glória e triunfo, vieram eles ser amos momentâneos duma fração desse ponto. Pensai nas crueldades sem fim infligidas pelos moradores dum canto deste pixel aos quase indistinguíveis moradores dalgum outro canto, quão frequentes as suas incompreensões, quão ávidos de se matar uns aos outros, quão veementes os seus ódios.
As nossas exageradas atitudes, a nossa suposta auto-importância, a ilusão de termos qualquer posição de privilégio no Universo, são reptadas por este pontinho de luz frouxa. O nosso planeta é um grão solitário na grande e envolvente escuridão cósmica. Na nossa obscuridade, em toda esta vastidão, não há indícios de que vá chegar ajuda de algures para nos salvar de nós próprios.
A Terra é o único mundo conhecido, até hoje, que alberga a vida. Não há mais algum, pelo menos no próximo futuro, onde a nossa espécie puder emigrar. Visitar, pôde. Assentar-se, ainda não. Gostarmos ou não, por enquanto, a Terra é onde temos de ficar.
Tem-se falado da astronomia como uma experiência criadora de firmeza e humildade. Não há, talvez, melhor demonstração das tolas e vãs soberbas humanas do que esta distante imagem do nosso miúdo mundo. Para mim, acentua a nossa responsabilidade para nos portar mais amavelmente uns para com os outros, e para protegermos e acarinharmos o ponto azul pálido, o único lar que tenhamos conhecido.Cquote2.svg
Carl Sagan
fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/P%C3%A1lido_Ponto_Azul
No link abaixo, se encontra a leitura deste texto recheado de imagens e com uma breve introdução de como e porque foi feita esta foto.
http://www.youtube.com/watch?feature=player_detailpage&v=iBAVSOqiTt4

A parte todo o avanço científico gerado pelas informações obtidas pelas sondas e toda a tecnologia que é desenvolvida e que encontra eco e aplicação no cotidiano da Terra elas nos ajudam a pensar um pouco na condição humana: presidiários de uma rocha coberta de água e que não passa de um pálido ponto azul quando vista de longe. Será que vale tanta discórdia, ganância, cobiça? Se não mudarmos nosso foco e a maneira de tratar essa preciosidade que é o nosso planeta, teremos o desprazer de destruir um cenário que, até onde pudemos chegar com nossas sondas, se mostra único e é o único onde podemos sobreviver.
No próximo capítulo, as sondas que atualmente estão em Marte.

Nenhum comentário:

Postar um comentário